O PENSAMENTO DE SAMDHONG RINPOCHE
n




Presidente da Câmara dos Deputados do Povo Tibetano



Estes são alguns trechos de um discurso do professor Samdhong Rinpoche na Segunda Conferência Internacional dos Grupos de Apoio ao Tibet, realizada em Bonn, Alemanha, em 1996:

Sobre o Tibet e a democracia:

Para o povo do Tibet, a democracia não é um princípio ou um sistema novo; também a nossa abertura para o processo democrático não foi, como parece, resultado da ocupação chinesa do nosso país, nem de nosso contato com influências externas. Desde a infância e muito antes de assumir o poder temporal, Sua Santidade o XIV Dalai Lama tinha uma vontade inequívoca de democratizar o Tibet. (...) Advogou a democratização e conseqüente renúncia à sua posição de autoridade, mas o povo recusou-se a aceitá-la. Nos últimos trinta e sete anos de sua vida no exílio, Sua Santidade gradualmente persuadiu e educou seu povo a adotar um modo de vida democrático e a levar os ideais à implementação, de modo a obter uma democracia genuína.
Em Junho de 1991, uma Carta Constitucional para o governo da diáspora tibetana recebeu a chancela de Sua Santidade, depois de ser aprovada pela XI Assembléia. A Carta tornou o povo soberano, e todos os órgãos do governo – executivo, legislativo, judiciário, e até a própria autoridade de Sua Santidade – derivaram seu poder pelas provisões contidas no documento.

Sobre o modelo de democracia tibetana:
O modelo da democracia tibetana é fundamentalmente diferente dos princípios democráticos modernos. O nosso é baseado nos princípios básicos de igualdade de todos os seres sencientes, com base no seu potencial para um desenvolvimento ilimitado. Só é possível o estabelecimento de uma igualdade assim na vida diária através da co-operação e não através da competição. A competição invariavelmente leva a uma forma de confronto ou de luta. É impossível alcançar o amor e a igualdade através da competição. Seja no sistema político ou no econômico, ela impede a co-operação e a colaboração genuínas. Compreendendo o fenômeno do comportamento humano, o Buda recomendou uma democracia livre do sentimento de competição.

Sobre o objetivo último da sociedade
O objetivo último da sociedade é despertar a inteligência humana. Ela cria um nível de racionalidade que leva à unanimidade – um estado em que não há mais necessidade de escolha.

Sobre uma democracia não-partidária
Assim, uma democracia não-partidária é possível quando cada indivíduo tem a liberdade de lidar com qualquer assunto conforme a sua sabedoria e conhecimento, sem qualquer condição imposta por grupos ou ideologias. O parlamento tibetano no exílio é um exemplo vivo de uma democracia não-partidária. Ela representa igualmente todos os tibetanos – sem ideologias grupais, programas, maioria ou minoria. A dominação da maioria sobre a minoria é um modo de impor a visão da primeira sobre a segunda, e não é uma situação ideal na democracia.

Sobre a descentralização democrática e o totalitarismo
A descentralização dos processos de tomada e implementação de decisões tornam cada indivíduo responsável e soberano por seus atos. Torna possível a cada um pensar globalmente e agir localmente. Para nós, acontece o totalitarismo quando algumas poucas pessoas vivem às custas de outras. Por outro lado, o princípio de "viver e deixar viver" é apenas a visão comum da democracia. Preferimos o modelo democrático em que todos vivem pensando no bem dos demais; é isto que estamos tentando implementar.

Sobre o Tibet do futuro:
1. No mundo de hoje a interdependência cresceu a tal ponto que o futuro de qualquer país não pode ser considerado de maneira isolada. Isto também é verdade no caso do Tibet. O futuro do Tibet está fadado a influenciar o futuro do mundo em geral e o de seus vizinhos imediatos – China e Índia – em particular. A situação geopolítica do Tibet é tal que o faz inseparável do curso da história chinesa e indiana. Para os analistas políticos, o conflito de civilizações entre esses dois países tão densamente povoados fará deles sempre temíveis contendores ou inimigos. Não há potencial para uma amizade genuína entre esses dois vizinhos. Assim, o status do Tibet como estado-tampão entre a Índia e a China será o fator determinante para o estabelecimento da paz, da estabilidade e da segurança na Ásia. Também geograficamente, sendo o Teto do Mundo e nascente de maior parte dos grandes rios da Ásia, o Tibet será o fator decisivo para o equilíbrio ambiental e ecológico do mundo. Cientistas do mundo todo chegaram à conclusão de que o platô tibetano sempre terá papel importante nas mudanças climáticas globais.
Hoje o Tibet é um dos territórios em que o valor da Declaração dos Direitos do Homem está sendo posta à prova. Se ela não obtiver êxito no Tibet, não valerá o papel em que foi escrita. É preciso que se compreenda que o futuro do Tibet está inseparavelmente ligado ao futuro de seus países vizinhos e do globo como um todo. O futuro do Tibet deve ser visto a partir dessa perspectiva integrada.
(...)

3. O status político do Tibet em termos de soberania ou autonomia, separação ou associação foi debatido por mais de uma década, mas a situação no país se deteriora a cada dia. Nossa preocupação básica, no que tange o futuro imediato, é salvar da destruição este país e a sua cultura única. Isso só será possível se a transferência de população e a ocupação civil chinesa cessarem imediatamente. As violações dos direitos humanos, do direito à linguagem e à liberdade religiosa também devem ter fim. A destruição do ambiente e ecossistema tibetanos devem ser estancadas agora mesmo.

Sobre a estratégia para atingir esses objetivos - a não-violência
Para materializar esses objetivos, proponho, humildemente, um programa para lançar o "Satyagraha" como movimento. Satyagraha é o nome dado à luta não-violenta contra a falsidade, a injustiça e a opressão. O termo foi cunhado e divulgado por Mahatma Gandhi, o maior praticante do Satyagraha. A sua eficácia e superioridade moral como recurso na luta contra a injustiça foram aclamadas pelo mundo todo. Foi aplicado em vários embates em diversos países, contra o racismo, a exploração e a destruição ambiental.

Literalmente, Satyagraha quer dizer "ater-se à verdade". Gandhi praticou Satyagraha como um modo de agir com o objetivo de acabar com o mal. Baseia-se nos princípios de verdade, amor, compaixão e não-violência, e pode ser aplicado por qualquer pessoa ou grupo, seja ou não o transgressor forte militarmente. O Satyagraha é completamente não-violento e jamais lança mão de armas.

Sobre a situação atual
Somente duas opções estão abertas para os tibetanos:
(i) negociações com um oponente que está fechado a nós
(ii) resistência.
Tentamos negociar por mais de quarenta anos, e isso não nos levou a lugar nenhum. Perdemos tempo precioso. Não há sinal de que a China esteja disposta a abrir-se ao diálogo, apesar da genuína abertura mostrada por Sua Santidade para buscar uma solução conciliatória.
(...)
A situação, assim, pede um sacrifício supremo – Fazer e Morrer. Decidamo-nos a uma tentativa final. Mas ela requer cooperação voluntária, coordenação completa, acertar todos os movimentos em todos os níveis – do indivíduo, do grupo, do Estado.
(...)
Temos muita sorte em ter Sua Santidade o Dalai Lama como líder. Seu senso de direção é claro. Seu compromisso com a democracia e a não-violência é consistente. A despeito da prolongada frustração, trouxe aos exilados a confiança na retorno ao Tibet. (...) Sigamo-lo e mantenhamos nosso compromisso com a verdade e com a não-violência. Quando Gandhi lançou seu chamamento a "Fazer ou Morrer", não havia outra escolha. Quando chamo meu povo a "Fazer e Morrer", também não há outra escolha.