A NATUREZA LUMINOSA DA MENTE



Palestra proferida por SS o Dalai Lama, em Claremont College, USA.

Precisamos nos familiarizar com as attitudes, mas o fato de estarmos habituados a emoções más, como o ódio, cria um enorme obstáculo para isso. Precisamos detectar as diversas formas de emoções perturbadoras e perniciosas, e combatê-las de imediato. Se nos acostumarmos gradualmente a controlar nossos maus hábitos, é possível que nos tornemos calmos em alguns anos, mesmo que no momento costumemos nos zangar com facilidade.

Algumas pessoas tendem a a achar que ficarão sujeitas a perder sua independência, se não permitirem que suas mentes vagueiem por onde desejarem, ou seja, se tentarem controlá-las. Não é verdade; se nossa mente estiver caminhando de maneira correta, já seremos independents, mas se estiver agindo de modo errado, é necessário exercermos controle sobre ela.

É possível eliminar completamente as emoções perturbadoras, ou conseguiremos apenas reprimí-las ? Do ponto de vista do budismo, a natureza convencional da mente é a de uma luz clara; desse modo, a corrupção não se encontra na própria natureza mental. As deturpações são fortuitas e temporaries, e podem ser extirpadas. Do ponto de vista supreme, a natureza da mente é o vazio da existência inerente.

Se as emoções perturbadoras, como o ódio, fizessem parte da verdadeira natureza da mente, então, esta seria, por exemplo, sempre odiosa, pois tal seria sua natureza. Contudo, isso evidentemente não é verdadeiro; só ficamos zangados em determinadas circunstâncias, e quando essas circunstâncias não se apresentam, a raiva não é gerada. Isso mostra que a natureza do ódio e da mente são diferentes, mesmo que num sentido mais profundo ambas sejam consciência, possuindo assim uma natureza da luminosidade e de conhecimento.

Quais as circunstâncias que servem de base para gerar o ódio ? Ele é gerado porque sobrepomos aos fenômenos uma repulsa e uma maldade que vão além daquilo que existe. Baseados nisso, nos zangamos com o que impede a realização de nossos desejos. Consequentemente, o fundamento é válido. Quando por um longo período de tempo, uma attitude que possui um princípio válido rivaliza com uma attitude destituída dele, aquela que o tem vencerá.

Em consequência, se adotarmos sem interrupção, por um longo período de tempo, atitudes que possuam um fundamento válido, as más atitudes, não fundamentadas nele, diminuirão gradulamente. Quando treinamos salto ‘a distância, por exemplo, a base do progresso é o corpo físico; portanto existe um limite de quanto se pode saltar. Contudo, como a mente é uma entidade de mera luminosidade e conhecimento, quando é ela a base do teinamento, pode-se, através da familiarização gradual desenvolver atirudes saudeaveis de modo ilimitado.

Nó próprios sabemos que a mente é capaz de se lembrar de muitos fatos; ao colocarmos nela algo, depois algo mais, vemos como é possível armazenar na memoria inúmeras coisas. Nos nossos dias não conseguimos reter grandes quantidades de elementos, pois empregamos apenas os níveis mais grosseiros da consciência; se usássemos os mais sutis, poderíamos reter uma extraordinária quantidade de elementos.

As qualidades que dependem da mente podem ser multiplicadas de modo ilimitado. Quanto mais introduzimos e incrementamos as attitudes que se opõem ‘as emoções perturbadoras, mais as atitudes adversas diminuem , extinguindo-se, afinal, por completo. Assim, considera-se que, por possuirmos uma mente cuja natureza é de mera luminosidade e conhecimento, todos nós reunimos as substâncias básicas necessaries para alcançarmos o estado de Buda.

Um ponto budista fundamental é que tomando-se como base que a mente é, essencialmente, uma entidade de luminosidade de conhecimento, pode ser demonstrado que ela tem capacidade para conehcer tudo. Isso, sob um prisma filosófico, sustenta a afirmação de que as boas attitudes podem ser incrementadas de modo ilimitado.

Em termos de prática cotidiana, é bastante útil detectar a natureza convenciaonal da mente e nos concentrarmos nela. O motivo pelo qual se torna difícil perceber a sua natureza é que ela estea encoberta sob nossas próprias concepções. Assim sendo, em primeiro lugar, é necessário que deixemos de nos lembrar o que ocorreu no passado e cogitemos o que poderá acontecer no futuro; deixemos que a mente flua de modo espontâneo e sem uma sobrecarga conceitual. Permitamos que ela descanse no seu estado natural, e a partir daí, passemos a observá-la. De início, enquanto não estivermos acostumados com esta prática, resultar-nos-á difícil; com o tempo, no entanto, a mente surge como água cristalina. Então devemos permanecer com essa mente autêntica impedindo o seugimento de concepções.

É conveniente realizarmos essa meditação logo pela manhã, quando nossa mente acabou de despertar e já está lúcida, enquanto nossos sentidos não estão compeltamente ativos. É bom não termos comido muito na véspera e nem dormido demais; isso torna a mente mais leve e estável. A atenção e a memoriaficarão mais claras.

Observemos se essa prática nos torna a mente mais alerta no decorrer do dia. O benefício mais imediato sera a tranquilização de nossos pensamentos. ‘A medida que nossa memoria se aprefeiçoar, poderemos desenvolver gradualmente a clarividência, o que decorre do aumento da atenção. Um benefício a longo prazo, tendo em vista que nossa mente tornou-se mais alerta e penetrante, é podermos usá-la em qualquer campo que desejarmos.

Seria de grande utilidade para nós, conseguirmos fazer diariamente uma pequena meditação, concentrando nossa mente dispersa num objeto interno, A capacidade de conceituação que de modo incessante elabora imagens – ora boas, ora más – conseguirá um descanso. Serão como pequenas ferias, para nos fixarmos na não-conceituação e repousarmos.