Tibet - A Luta pelos Direitos de uma Cultura
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Conferência do Prof. Samdhong Rinpoche
09-12-1997 – Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo


PRESENTES: Prof. Samdhong Rinpoche; Prof. Álvaro Villaça Azevedo, presidente da mesa; Prof. Dalmo de Abreu Dallari; Rabino Henry Sobel; Prof. Margarida Genevois; Liane.Verney; Profa. Lia Diskin; Dr. Manoel Vidal.

Aos distintos participantes da mesa: não consigo falar o nome de vocês, mas quero saudar todos os organizadores desse evento; quero saudar também aos monges e monjas que estão reunidos aqui.

Sinto-me profundamente honrado em podermos estar hoje aqui reunidos, nesta manhã, nesta faculdade de Direito. Há muitos anos tenho o desejo de conhecer o Brasil, e sempre me chamou a atenção a calidez de coração dos brasileiros. Na verdade, essa minha viagem ao Brasil não foi tão fácil; acabei chegando com dois dias de atraso, mas no final das contas estou aqui e isto é motivo de grande honra e alegria para mim.

Tentarei falar brevemente sobre o tópico que me foi proposto, que é a luta do Tibet pelos direitos de sua cultura.
Em toda a sua história, o Tibet sempre existiu como um país independente e soberano, com exceção de breves períodos em que foi invadido pelos mongóis, depois rechaçados.

A cultura e a civilização tibetanas não são tão antigas assim; começam no século V depois de Cristo. Desde então, essa cultura vem florescendo fortemente influenciada pelo budismo, uma tradição religiosa que os tibetanos importaram da Índia. Antes da chegada do budismo, o Tibet era uma nação composta por guerreiros que travaram inúmeras batalhas com a China e outros países vizinhos. Com o budismo, a partir do século VI, houve uma transformação no espírito do povo tibetano, que se tornou mais sereno, um povo amante da paz.

No século IX, o Tibet e a China assinam um tratado de paz — mais precisamente no ano de 829; a partir de então, os tibetanos têm se abstido de cometer atos beligerantes em relação aos seus vizinhos. Mas no século VII o budismo já havia se estabelecido integralmente no Tibet, e estava presente em todas as suas versões. Tanto o budismo Hinayana quanto o Mahayana já existiam no Tibet nessa época.

A Mongólia, um país vizinho, em dado momento invadiu a China e passou a governá-la; antes disso, os chefes mongóis tinham se convertido ao budismo tibetano, tendo passado a receber ensinamentos dos monges do Tibet. No século XIII, a Mongólia invadiu o Tibet, ocupando o país por quarenta anos. Ao fim desse período, a soberania sobre o território foi devolvida ao chefe do Estado Tibetano. Desenvolveu-se, nesses quarenta anos, uma relação muito estreita entre os chefes e governantes mongóis e os tibetanos, que perdurou durante o período da invasão mongol na China. Com a continuidade desse relacionamento e a sucessão das dinastias mongóis, seus chefes foram recebendo ensinamentos de diferentes professores e mestres tibetanos.

Os estudiosos ocidentais vieram a designar de clero-patronal a relação especial que se estabeleceu entre clérigo e patrono. Tratava-se de uma relação exclusivamente religiosa, nada tendo a ver com o domínio político. Assim, estabelece-se uma relação entre o V Dalai Lama e o chefe do governo da Manchúria, antes que esta invadisse a China. Assim, quando o povo manchu invadiu a China, já havia se estabelecido, entre os chefes de governo da Manchúria e os Dalai Lamas, essa relação clérigo-patrono, que seguiu ao longo de todas as dinastias manchus que governaram a China até 1911. Depois disso, essa relação não pôde mais ser mantida e se deteriorou. Assim é que, em 1910, o exército chinês invade parte do Tibet e em 1912 o XIII Dalai Lama declara terminado o relacionamento até então existente entre Dalai Lamas e governantes da China.

Durante os quatrocentos anos que antecederam esse evento, Tibet e China mantiveram sempre uma relação muito amistosa, e seus povos tinham muito apreço um pelo outro. A China veio a passar por várias transformações históricas e em 1949 tornou-se comunista. O Partido Comunista assumiu imediatamente o poder e o governo chinês promoveu uma invasão do Tibet.

Em 1950, metade do território tibetano já havia sido alcançado pelas operações militares chinesas e, em maio de 1951, a China impôs, sob coação, um acordo injusto para o povo do Tibet. Passaram a ocupar o país segundo o que eles chineses denominaram de "liberação prática." Desde então, pelos últimos 45 anos, a luta entre os governantes da China e o povo tibetano continua. A disputa é somente pela sobrevivência da cultura e da civilização tibetanas, nada mais.

É muito importante que entendamos a natureza dessa luta do povo tibetano. Muitas pessoas pensam que ela tem a ver com uma confrontação entre ideologias políticas, isso porque não havia nenhuma confrontação entre o Tibet e a China antes que esta se tornasse comunista. Mas quando isso ocorreu, e ela invadiu o Tibet, o fato de os tibetanos terem resistido leva muitas pessoas a pensar que essa resistência se dirige à ideologia comunista. Talvez existam na mente do povo tibetano algumas preferências e aversões em relação ao comunismo, nas na verdade a luta do povo tibetano não é contra o ideal comunista. Se o povo tibetano gostar do comunismo e adotá-lo, nada temos contra isso; mas deve poder fazê-lo por sua própria iniciativa, de forma a trazer a preservação de sua cultura e identidade. Há, no mundo, muitos comunistas que apoiam a causa tibetana. O atual Dalai Lama diz que nós não podemos condenar totalmente a ideologia comunista, particularmente o Marxismo; para ele, o que é basicamente censurável é a forma violenta, os métodos que usam a força e que são usados para implantá-la. Fica muito claro, assim, que nossa luta fundamentalmente não se baseia num conflito entre ideologias políticas.

Outras pessoas pensam que a luta tibetana é uma luta de grupos étnicos. Dizem que os chineses, como etnia, não gostam dos tibetanos como tal, e vice-versa; portanto, há um confronto das etnias chinesa e tibetana.
Por mais de quatrocentos anos o povo tibetano e o povo chinês conviveram lado a lado de forma amistosa e cordial. O povo chinês beneficiou-se com essa relação, recebendo ensinamentos espirituais; os tibetanos, em contrapartida, receberam auxílio material.

Mesmo nos dias de hoje, apesar de todas as atrocidades infligidas aos tibetanos, não há entre nós sentimentos maus em relação ao povo chinês. Sua Santidade o Dalai Lama abriga sentimentos compassivos e amorosos em relação ao grande povo da China. Em suas viagens ao exterior, quando tem a oportunidade de conhecer pessoas de outras nações e de falar com chineses, ele sempre privilegia esses encontros. Em março desse ano, o Dalai Lama

visitou Taiwan, basicamente para conhecer chineses tradicionais que vivem nesse local. Toda a população do país recebeu-o de forma muito calorosa; foram beneficiados pelos ensinamentos rituais que ele tinha a oferecer. No futuro, nós tibetanos esperamos poder de alguma forma colaborar, através dos ensinamentos espirituais ou de qualquer outra forma que esteja ao nosso alcance, com os chineses que vivem na China continental.
Como budistas, cabe-nos ajudar todos os seres sencientes, e portanto não tem sentido qualquer discriminação contra os chineses. E mesmo deixando de lado o aspecto espiritual, o Tibet e a China são países geograficamente vizinhos, e portanto seus povos terão que cultivar sempre a boa convivência.

Assim, fica muito claro que a nossa luta não é uma luta entre a etnia chinesa e a etnia tibetana.
Uma terceira maneira equivocada de compreender a situação, como acreditam muitas pessoas, é vê-la como uma luta política entre o poder do Dalai Lama e o dos governantes chineses. Qualquer povo tem o direito de lutar por sua própria liberdade e poder políticos; nós, no entanto, não estamos fazendo isso. Tanto por razões jurídicas e políticas quanto sociais, o povo tibetano poderia e deveria, por direito, lutar por sua própria liberdade; mas não é isso que estamos fazendo neste momento. Para nós, o poder político não é tão importante assim. Evidências históricas mostram que muitas novas nações foram constituídas, enquanto muitas nações antigas foram ocupadas por outros povos. São mudanças de forças que ocorrem. Por exemplo, a Índia existia como nação; depois, foi ocupada pelos britânicos e em conseqüência disso foi dividida em duas partes. Depois ainda, veio a se tornar três países. A Alemanha foi dividida em duas partes, e também o Vietnam. Isso perdurou por vários anos. A China, ainda hoje, é constituída por duas nações. Essas divisões ocorrem e depois vêm as reunificações, como se deu no Vietnam e na Alemanha. Na Europa, há várias nações soberanas que se movem na direção de um tipo de unificação, aproximando-se cada vez mais, no contexto da União Européia.

Portanto, a teoria da Nação-Estado não é tão importante para nós. O Tibet pode ser governado pelos chineses, pode ser governado por qualquer outro país, ou pode ser governado pelos próprios tibetanos; a questão principal que se coloca é se este governo que se estabelece é voltado para o benefício do povo tibetano.
O bom governo não deve ser avaliado por quem está governando, mas sim por trazer ou não benefícios ao povo, pela maneira como afeta o povo.

Nos últimos dezoito anos, desde 1979, Sua Santidade o Dalai Lama tem buscado aquilo que se denominou de uma política do caminho do meio; ele diz que na medida em que os chineses possam assegurar a preservação da autonomia cultural e da identidade tibetanas, estamos dispostos a permanecer sob a soberania da China.
A partir desta análise, portanto, concluímos que a nossa luta não é uma luta contra a ideologia política, nem uma luta entre grupos étnicos, nem tampouco uma luta pelo poder político. Então qual é a nossa luta? Está muito claro que ela é pela sobrevivência da identidade cultural e civilização tibetanas.

A herança cultural e espiritual do Tibete é única. É um legado das tradições budistas provenientes da Índia. Essa cultura se apoia em dois princípios fundamentais: a não-violência e a compaixão. Estes são os dois
princípios básicos sobre os quais se desenvolveu a totalidade da cultura tibetana. Essa herança cultural inclui uma tradição filosófica muito rica, assim como uma vertente espiritual e de meditação; tem como resultado uma abundante produção literária, artística e arquitetônica, constituindo uma visão particular do Belo, entre outras manifestações.

A nação tibetana era minúscula em termos de população, já que tinha apenas seis milhões de habitantes, certamente infinitamente menor que a do Brasil. Historicamente, o Tibet também não é uma cultura muito antiga, uma vez que existe há apenas onze ou doze séculos — portanto um período relativamente curto em termos históricos. Considerando a pequena população e o curto tempo de existência da cultura tibetana, sua produção literária, arquitetônica, artística e cultural foi muito vasta. As manifestações artísticas e culturais, a pintura, a literatura, a dança, a música, a joalheria, a arquitetura, o artesanato, a filosofia e a tradição espiritual e meditativa testemunham e evidenciam a riqueza, importância e singularidade da herança cultural tibetana.

Apesar da sua história relativamente curta e a despeito de sua reduzida população, a cultura tibetana encontra eco e está representada em muitas partes do mundo. Até hoje não visitei nenhum museu onde a arte e artefatos tibetanos não estivessem presentes, nem uma biblioteca em que não pudesse encontrar obras literárias tibetanas. Assim, a cultura e as tradições espirituais tibetanas não são propriedade apenas desse povo de seis milhões de pessoas, mas pertencem à humanidade como um todo e são relevantes ainda nos dias de hoje.
Nos últimos vinte ou trinta anos, as tradições religiosas e culturais têm se difundido por todo o mundo. Assistimos, nesse período, ao aparecimento de muitos institutos e centros de estudos e de prática da religião tibetana. Se a herança cultural tibetana não fosse valiosa, não estaríamos assistindo no ocidente a tantas manifestações de interesse pelas coisas do Tibet.
Portanto, essa cultura é um bem que pertence à humanidade como um todo, e os governantes da China não têm o direito de destruí-lo.

Nenhuma herança cultural consegue sobreviver em sua plenitude num país estrangeiro. A herança cultural e espiritual precisa de um contexto, de um ambiente, de um povo e de suas próprias instituições e lugares. Muitas pessoas pensam que a herança cultural tibetana poderá sobreviver fora do Tibet, mas isso não é verdade. A herança cultural tibetana que hoje sobrevive fora do Tibet constitui apenas uma minúscula parte, nada mais que uma réplica da original. Não é a realidade; não representa de modo algum a totalidade e a realidade dessa cultura. Quando uma árvore ou uma planta é retirada de seu solo nativo e transplantada para outro local, existe uma grande diferença.

Por essa razão é que o povo tibetano tem a responsabilidade universal de preservar e promover a sua herança cultural e espiritual para o benefício de toda a humanidade. Para que isso possa acontecer, o povo tibetano precisa de um certo ambiente e de alguma liberdade dentro do próprio Tibet. De outro modo, isso não será possível. Nossa luta não é por direitos, mas por deveres e responsabilidades.
Se a China nos der, dentro do Tibet, tal autonomia e condições para que os tibetanos possam pelo menos viver sua vida própria e real, preservando e promovendo sua herança cultural, então nós não iremos nos importar com a soberania política. Para isso, precisamos do território tibetano livre de alterações demográficas dramáticas, produzidas pela transferência em massa de chineses para o Tibet. Também precisamos de nossa própria língua e processo educacional, e de nosso próprio estilo de vida.

Nossa luta não visa de modo algum causar qualquer dano ao povo chinês; ao contrário, nossa luta visa também o benefício desse povo. Temos basicamente três compromissos: a verdade, a não-violência e a democracia. Esses três são os eixos que nos orientam. Esses três pontos orientam o povo tibetano que vive dentro ou fora do Tibet e que está disposto a dar continuidade à sua luta se puder contar com o auxílio e o incentivo de vocês.
Agradeço todo o apoio e simpatia que a causa tibetana vem recebendo de pessoas de outros países e dos brasileiros; isso é para nós uma grande fonte de ajuda e incentivo.

Sua Santidade o Dalai Lama diz sempre que as pessoas que apóiam a causa tibetana não devem ser vistas como pró-Tibet e contra a China, mas sim como pessoas a favor da justiça e contra a injustiça.
É claro que nós, tibetanos, não temos a oferecer às pessoas que nos apóiam qualquer ganho político ou econômico; portanto, esse apoio é sincero, genuíno e altruísta. Vocês amam o povo e a cultura tibetanos e portanto não esperam uma recompensa pessoal, e esse gesto, com essa qualidade em si, já tem muito valor.
Encerro com essas palavras e gostaria de agradecer a atenção de todos vocês.

PERGUNTA: (inaudível)

PROF. SAMDHONG:
Essa proposta de Estrasburgo é muito detalhada; contém mais de trezentas páginas. Esboça uma solução onde o Tibet existiria sob a soberania política da China mas com autonomia cultural.
Se os líderes chineses não concordarem com essa proposta, e se acharem que a autonomia cultural não é possível sem a autonomia política, então os tibetanos serão obrigados a lutar também pela autonomia política.

Atualmente, o Tibet é um país ilegalmente ocupado, pois até agora a China não conseguiu legitimar a ocupação, que já dura mais de quarenta anos. Apesar da longa duração, não há legitimidade, pois o governo é ilegítimo. Se a China não mudar a sua atitude com relação ao Tibet e não oferecer-lhe uma verdadeira autonomia cultural, os tibetanos serão compelidos a lutar também por sua autonomia política. No momento, ainda temos esperança de estabelecer um diálogo significativo com os chineses, para tornarmos possíveis essas reivindicações. Agora a bola está na quadra chinesa e cabe a eles responder.
Quanto à segunda pergunta do professor Dallari, aqueles que querem oferecer seu apoio ao Tibet podem fazê-lo de inúmeras formas. Atualmente o que o governo tibetano no exílio propõe é que sejam iniciadas negociações sérias e sem condições prévias, tomando como base a proposta do plano de cinco pontos que depois foi reformulada em Estrasburgo. Na medida em que as pessoas puderem exercer pressão de forma a contribuir para persuadir os líderes chineses a entabular essas negociações, essa seria uma contribuição valiosa.

Em segundo lugar, vocês podem ter alguma ação junto ao governo do Brasil no sentido de sensibilizá-lo em relação à questão tibetana e à maneira como esse governo se manifesta.


TRADUTOR:
Vou me permitir a liberdade de dar a vocês um dado: nos últimos sete ou oito anos a questão do Tibet tem sido proposta na Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas, em Genebra. Esse é um organismo da ONU em que os países da Europa têm apresentado uma moção de crítica à invasão chinesa, instando a China a cessar a violação de direitos humanos na própria China e no Tibete.
Os Estados Unidos têm sistematicamente aprovado uma moção e o governo brasileiro tem sistematicamente se abstido de votar.
Em 1995, os tibetanos perderam por um único voto. Então talvez o voto do Brasil pudesse ter feito essa diferença. Assim há uma ação que cabe a nós brasileiros. Muitos de nós são sabem que esse tipo de coisa acontece.

PROF. SAMDHONG: Tivemos, com a ocupação chinesa, uma ampla violação dos direitos humanos, uma grande depredação do meio ambiente, degradação e destruição de recursos naturais, ao lado desse genocídio cultural que tem se perpetrado no Tibet. Então, todas as instituições e organizações voltadas para a preservação do meio ambiente e proteção dos direitos humanos têm, na questão tibetana, amplo campo de trabalho.
Há uma coisa muito fácil e poderosa que vocês todos podem fazer, sem custo material algum e em suas próprias casas: rezar todos os dias, irradiando amor e compaixão pelos tibetanos que estão sofrendo. Vocês podem também orar para que as autoridades chinesas mudem sua mentalidade com relação aos tibetanos. Há muitas outras formas de auxílio que podem ser oferecidas, mas cada país desenvolve a sua própria forma de ajudar.

PERGUNTA – PRESIDENTE DA MESA: Antes de passar a palavra aos participantes da mesa, quero dizer que ouvi com atenção os ensinamentos do conferencista e numa faculdade de direito sempre é importante fazer reflexões. A reflexão que trago nesse momento é a seguinte: o conferencista falou da possibilidade de que o Tibet só exerça os seus deveres. Na verdade é praticamente impossível a situação de separar o dever do direito. "Os direitos e os deveres são sempre correlatos." Porque quando existe um relacionamento humano em que só existem deveres para uma das partes, nós estamos num regime de escravidão. É preciso que o Tibet, com a ajuda que for, tenha em mira esse direito sagrado do restabelecimento da sua independência e soberania, porque não é possível, neste mundo de violências, a existência só pela espiritualidade. Eu sou espiritualista, rezo, farei tudo o que puder para que essa injustiça se repare. Entretanto, é preciso haver uma manifestação mais concreta. O professor Dalmo deixou esse caminho aberto, para que por intermédio das organizações internacionais — por exemplo, se não deu certo na ONU, podemos nos valer da Corte Internacional de Justiça de Haia, em cujo estatuto está prevista a possibilidade de se obter um parecer ou uma opinião jurídica "Legal Opinion" — haja uma recomendação, porque a corte não tem poder decisório. Uma recomendação no sentido de que os povos apoiem todas essas atitudes dos injustiçados no final desse milênio. Por outro lado, se o governo não se sensibilizar com essas providências ou essas tomadas de posição, será preciso então mobilizar a sociedade e o caminho será de manifestos, manifestações sindicais, das universidades e dos vários setores da sociedade.


E eu quero dizer que, modestamente, nós somos um grão de areia neste deserto de incompreensão humana que existe em nosso país, mas estaremos aqui, sempre dispostos a trabalhar, a fazer manifestos, a receber conferencistas, a divulgar da forma como for possível — pela imprensa, pelos meios de comunicação — e dizer que a Faculdade de Direito do Largo São Francisco tem essa tradição de exatamente procurar fazer justiça e de reparar todas essas situações de violência e de má compreensão dos direitos humanos que estão sendo vilipendiados a cada dia, que o mundo tem mostrado. Parece que a violência aumenta sem parar, e talvez então seja preciso, seguindo o exemplo de Jesus, pegar às vezes o chicote para expulsar do templo os fariseus. De maneira que é uma posição também de amor, porque quando se luta pelo direito, se está lutando pela justiça e todo o meio utilizado nesse sentido será um meio de legalidade. Nós não podemos nos conformar com esses absurdos e temos que começar o novo milênio com uma espiritualidade mais sólida, assentada realmente num território onde o povo possa exercer sua cidadania com liberdade e com democracia. A pergunta que eu faço é se nós teríamos essa permissão de organizar listas, manifestações e encaminhá-las ao governo central do Tibet no exílio, para que a Faculdade de Direito possa, junto com a Universidade de São Paulo — que tenho certo que ficará também sensibilizada — tomar essas providências para que haja um somatório no sentido não só espiritual mas também com a força de uma posição daqueles que lutam pela justiça.

PROF. SAMDHONG:
Todas as formas de ajuda, particularmente no Direito, são bem-vindas e valiosas. Vocês devem sentir-se à vontade para, através de manifestações ou outros meios, colaborar; a única coisa que assinalo aqui é que essa participação em prol da causa tibetana não deve se expressar por meios violentos. Quanto aos tibetanos terem o direito à independência: reivindicá-lo ou não é outra questão.

PLATÉIA:
Assistindo a uma palestra no qual o Deputado Eduardo Jorge, de acordo com denúncias levadas à Unicef, vi que ele exortava o público a boicotar o consumo de bolas de futebol — noventa por cento delas são produzidas no Paquistão por crianças. Penso então que além das pressões do nosso governo junto aos organismos como a Comissão de Relações Exteriores do Senado e da Câmara, o boicote econômico pode ser um recurso. O Brasil é, atualmente, um grande mercado para produtos da China; então por que não sair daqui, hoje, já não comprando esses produtos? Tenho certeza de que isso irá pesar no bolso chinês. Aí pode começar a ficar mais fácil a conversa com eles.

PROF. SAMDHONG:
O boicote aos produtos chineses poderia ser uma medida eficaz. Nós próprios, tibetanos, já nos debruçamos sobre essa questão e até Gandhi já havia concluído que essa seria uma medida não-violenta.
Alguns pensaram que a liberalização econômica na China poderia representar também uma liberalização com relação aos direitos humanos e políticos, mas isso não se provou verdadeiro. Assim, talvez através dessa pressão econômica tenhamos mais uma frente de trabalho.

PLATÉIA: Essa questão econômica não foi abordada pelo conferencista. A nação tibetana se recusa a lutar por sua independência através da violência.

Mas sabemos que, na história internacional da luta dos direitos pelas nações, somente com uma pressão política externa muito forte é que essa independência tem se mostrado possível. Eu não vejo, hoje, por causa da questão econômica, muita disposição dos países no sentido de fazerem um esforço para criar um conflito político com a China em função da questão tibetana. A China é um gigantesco mercado consumidor e as nações aproveitam-se da abertura econômica que ela oferece.
Timor Leste, Líbano, Tibet não representam interesse econômico suficiente para motivar até um confronto político. Como o Tibet poderia, através da sua religiosidade e espiritualidade, superar essa falta de interesse econômico que ele tem para o mundo?

PROF. SAMDHONG:
Concordo com a sua análise. A maioria dos países ocidentais está interessada no mercado consumidor chinês porque, em primeiro lugar, a China tem uma vasta população e, em segundo, tem um regime totalitário onde é possível comerciar facilmente e obter o lucro o lucro desejado subornando algumas tantas autoridades chinesas.
Assim, a questão não é apenas a grande população. Também a Índia, por exemplo, é muito populosa e representa um enorme mercado, mas atrai menos a iniciativa comercial do ocidente por ser um regime democrático — onde há regras, fiscalização, opinião pública e liberdade de imprensa, legislação e cortes de justiça; portanto, não se pode comerciar como bem se entende nem fazer acordos vantajosos, ilícitos ou corruptos tão facilmente.

De fato o poder econômico e de mercado do ocidente busca aproveitar as facilidades oferecidas pelo governo autoritário da China, às expensas também do povo chinês. Portanto, temos que educar os comerciantes ocidentais para aprenderem a não ignorar totalmente os direitos humanos e as liberdades civis que muitas vezes estão sendo espoliados em benefício do seu lucro. Essa educação e a divulgação das distorções que ocorrem são muito importantes.
Apesar dessas injunções econômicas, acredito que a questão tibetana pode ser bem sucedida, porque a verdade e a justiça estão do nosso lado e isso traz força. Se os tibetanos souberem conduzir o assunto, há possibilidade de sucesso.

PROFA. DA MESA (MARGARIDA GENEVOIS): Eu não quero fazer uma pergunta, mas uma constatação e dizer da minha emoção em ouvir o Prof. Samdhong Rinpoche.
Acho que para todos nós o Tibet é um país bem misterioso e longínquo, vivendo num outro patamar espiritual; constatamos aqui que isso realmente é verdade. Acho que porque estão tão alto, a quatro mil metros de altura, estão mais perto de deus e chegaram a essa sabedoria toda.

Fiquei profundamente comovida com tudo isso que ouvi, pois nós todos estamos interessados no Tibet, sabemos um pouco sobre o que se passa lá e o Prof. Samdhong não falou nem uma vez das barbaridades que estão sendo cometidas no país dele. Muitas pessoas foram mortas — mais de um milhão —, barbaramente torturadas, e ainda há muitos prisioneiros sendo humilhados e torturados e mortos todos os dias, do modo mais revoltante. Há um genocídio, um esmagamento da cultura tibetana; nas escolas, não se ensina mais o idioma tibetano; das dezessete universidades, apenas uma ensina nesse idioma. Assim, a população se vê obrigada a estudar a vida toda em chinês, e isso me parece gravíssimo. Estão querendo anular toda a cultura.

Com tudo isso, o professor, com sua filosofia, nos falou de paz, de compaixão. Não houve uma palavra de revolta contra isso, e no fundo ela deve existir, mas acima dela está a compreensão humana. Então acho que isso é uma lição para nós, que estamos lutando pela justiça; devemos ter essa compreensão e esse amor ao próximo. Foi isso que ficou para mim, através dessa bela palestra que ouvimos hoje. Nós, que nos interessamos e lutamos pelos direitos humanos, sairemos daqui muito mais fortalecidos nessa luta. Muito obrigada, professor.

REPR. DA ANISTIA INTERNACIONAL:
A verdade, a não-violência e a democracia são os princípios que norteiam o trabalho da Anistia Internacional; dentro dela, a Seção Brasileira trabalha ativamente pelos Direitos Humanos no Tibet. No ano passado, tivemos uma campanha internacional contra as violações do governo da China, e o Brasil foi o único país que conseguiu entregar o relatório dentro do Consulado Chinês. Um dos modos de ajudar, portanto, é juntando-se a nós. Precisamos muito de ajuda. Obrigada.

PRESIDENTE DA MESA: Declaro encerrada esta sessão.