Uma das figuras públicas de maior proeminência da atualidade e com inúmeras solicitações de entrevistas, o monge budista Tenzin Gyatso, ou XIV Dalai Lama, na condição de líder espiritual do povo tibetano e dirigente das quatro principais seitas do budismo tibetano, é um verdadeiro exemplo de humildade e perseverança. À luz dos ensinamentos de Buda, o Dalai Lama é fonte de inspiração e guiança para os tibetanos, que buscam a liberdade para o seu país.
O atual Dalai Lama pertence à linhagem da tradicional escola Gelugpa do budismo tibetano, fundada pelo erudito Je Tsongkhapa no século XIV. Esta escola se caracteriza por sábias interpretações do budismo e conta com um rigoroso treinamento monástico. Tenzin Gyatso iniciou seus estudos desde pequeno e, embora não fosse um aluno excepcional, era um excelente orador. Hoje, as palestras de Sua Santidade o Dalai Lama atraem centenas de milhares de praticantes do budismo, religiosos e leigos, ansiosos por ouvir sua interpretação iluminada dos ensinamen- tos budistas
A entrevista a seguir foi cercada de muito preparo e cuidados. O objetivo maior era aprofundar nosso conhecimento sobre a essência do budismo - a iluminação - por meio de perguntas pertinentes à Sua Santidade. Fomos calorosamente recebidos na residência do Dalai Lama, na cidade indiana de Dharamsala, aos pés dos Himalaias. Além de sede do Governo Tibetano no Exílio, com vários mosteiros e templos budistas, Dharamsala transformou-se em um moderno centro turístico e local de peregrinação de milhares de pessoas, principalmente ocidentais, que consideram o Dalai Lama a própria reencarnação do Buda.
Entrevistar uma pessoa como o Dalai Lama, considerado um verdadeiro santo por muitos, foi uma experiência excepcional. Sua Santidade emana um raro senso de bondade, alegria e profunda fé na humanidade, não obstante o exílio forçado a que os tibetanos foram submetidos pela China. Durante toda a entrevista, auxiliado pelo seu tradutor e assistente pessoal, o venerável monge Lakhdor, o Dalai Lama sorria e fitava-me carinhosamente, como se quisesse comunicar algo mais do que suas clássicas respostas transmitiam.
A entrevista transformou-se num um desafio e ao mesmo tempo algo totalmente fascinante, à medida que tentava conciliar as explicações, por vezes muito técnicas, a respeito da essência dos ensinamentos Gelugpa em relação aos conceitos de vazio e iluminação, com a radiante compaixão de Sua Santidade e a simples expressão de sua própria experiência. Apesar da popularidade que goza nos países do Ocidente, o budismo tibetano permanece um enigma em muitos pontos. O contraste entre a grandeza de alguns reverenciados lamas e seus complexos ensinamentos ainda traz à tona a questão, que é o cerne do caminho budista: o que é iluminação?
A CIÊNCIA DA MENTE
- REVISTA WIE (What is Enlightnement? O que é a Iluminação?): A palavra "iluminação " é hoje muito utilizada no Ocidente, e é comum dizer que a prática do budismo leva à iluminação. Contudo, existem várias interpretações dessa palavra. O que Vossa Santidade busca alcançar ao refletir sobre a iluminação e seu significado?
- SS O DALAI LAMA: Existe uma capacidade cognitiva da "consciência" ou "mente", isto é, algo através do qual percebemos ou sabemos. Dizemos: "eu vejo, eu estudo, eu conheço, eu me lembro". Existe um elemento único, um canal de observação das coisas. No indivíduo, a capacidade ou faculdade de perceber é muito limitada. Porém, temos potencial para desenvolver essa capacidade. O "estado búdico" ou a "iluminação búdica" ocorre à medida que nosso potencial de percepção se desenvolve. Aumentar nossa capacidade de percepção constitui um estágio da iluminação em si. Portanto, o termo "iluminação" refere-se tanto a perceber algo que não se percebia, como a descobrir algo que não se sabia. Contudo, a iluminação no estado búdico pressupõe um estado totalmente desperto. Os ensinamentos budistas pregam que nossos esforços devem concentrar-se no treino ou modelagem da mente. Sentimentos como o ódio ou apego são destrutivos e prejudiciais, o que chamamos de "emoções negativas". Como podemos reduzir essas emoções negativas? Certamente não por meio de orações ou exercícios físicos, mas antes pelo treino da mente. Exercitando a mente, nossas virtudes afloram. À medida que a compaixão genuína, infinita e imparcial cresce dentro de nós, o ódio se atenua. Quando a serenidade de espírito e o senso de justiça se estabelecem, o desapego diminui. Essas emoções negativas são frutos da ignorância e o antídoto para a ignorância é a iluminação. É muito importante analisarmos nosso universo mental e descobrirmos sua verdadeira natureza. Quais são as características da mente? Que estados mentais são destrutivos? Quais os construtivos? Ao analisarmos estas questões atentamente, poderemos adquirir pleno controle de nossa mente e, assim, dotá-la de bondade, erradicando o mal e a negatividade. É por isso que alguns eruditos contemporâneos descrevem o budismo como a "ciência da mente".
- WIE: Há um interesse generalizado pelo budismo hoje, mais como um meio de se buscar paz de espírito, relaxar ou despertar a consciência do que especificamente atingir a iluminação. Qual seria a diferença entre dedicar-se à prática budista para obter eventuais benefícios, e dedicar-se à prática com a intenção verdadeira de alcançar a iluminação?
- SSDL: Algumas idéias budistas podem ser colocadas em prática sem que o indivíduo necessariamente seja adepto do budismo ou converta-se a ele. Aqueles que confiam e acreditam nos ensinamentos do Buda podem se tornar seres humanos plenos de bondade e serem considerados budistas, mesmo que não se interessem por reencarnação ou não desejem atingir o Nirvana. Contu- do, se uma pessoa quiser desenvolver uma prática budista verdadeira, deverá genuinamente aspirar ao Nirvana ou iluminação.
- WIE: Por que esta aspiração é essencial?
- SSDL: Creio que a definição do budismo está no ensinamento das Quatro Nobres Verdades. O budismo consiste em tomar consciência e aceitar esses ensinamentos básicos da realidade, com o intuito de seguí-los e aplicá-los ao dia-a-dia. Não obstante, pode-se ser budista sem essa vivência. Não é necessário possuir um conhecimento profundo do significado das Quatro Nobres Verdades para ser um simples budista. Basta recorrer ao Buda, ao dharma (ensinamento) e à sangha (grupo de praticantes), realizar práticas corriqueiras e ser apenas um simples praticante. Mas, para tornar-se um praticante budista verdadeiro, é necessário uma compreensão profunda das Quatro Nobres Verdades e, para isto acontecer, é importante que os conceitos de Nirvana e iluminação estejam consolidados.
NÃO HÁ EXISTÊNCIA INDEPENDENTE
- WIE: A doutrina do "vazio " é a base dos ensinamentos do Buda e, para os que seguem o budismo, compreender o verdadeiro significado do vazio parece ser imperativo. Embora o conceito de vazio venha sendo exaustivamente discutido e analisado, há uma gama de interpretações a respeito de seu significado. Alguma escolas budistas referem-se ao vazio como o nada, enquanto outras afirmam que o vazio implica na existência de algo transcendente. No entender de Vossa Santidade, em que consiste o vazio?
- SSDL: O próprio Buda afirmava existir vários níveis de vazio. Em termos gerais, o vazio significa a falta da existência real do "objeto de negação". Primeiramente, devemos perguntar: qual é o objeto de negação? Há maneiras distintas de identificá.,lo. Por exemplo, o processo de identificação da ausência do "eu" da pessoa, ausência do "eu" dos fenômenos etc. Há, também, diversas interpretações e conceitos sobre o vazio, conforme a escola de pensamento. A filosofia Madhyamika ("o caminho do meio") entende o vazio como a ausência de existência independente, ou seja, algo existe e o vazio é tão somente a qualidade e característica do processo de existir. Estas qualidades estão ausentes onde o objeto não existe. A ausência de existência independente é a própria natureza caracterizada pela existência, e só é possível porque existe algo. Portanto, o vazio não se refere apenas ao não-encontrar um objeto determinado. Se buscamos um objeto inexistente e não o encontramos, não significa o vazio. Por exemplo, não existe uma flor sobre esta mesa e a simples "ausência" da flor não é o vazio. Agora, tomemos como exemplo o seu gravador, com a seguinte pergunta: Qual é a verdadeira natureza do gravador? Quando examinamos a forma, o material e natureza deste objeto separadameme, ele não mais existe como "gravador". No plano físico há um gravador, mas ao analisarmos suas qualidades e características individualmente, cessa de existir como "gravador" e passa a ser apenas uma designação. Repetindo, a mera "ausência" da flor não significa vazio.
- WIE: Há uma passagem nos Sutras em que um monge de Gautama Buda pergunta ao mestre se "não há nada " que exista. A pergunta -se existe "algo " ou "nada " é interessante à medida que a percepção do "nada existe" pode levar ao niilismo. Buda respondeu diretamente ao monge, declarando que há aquilo que está "para nascer" e este fato gera a possibilidade de escapar do sofrimento da existência terrena. É sabido que algumas seitas tibetanas reconhecem a existência do "algo ". Baseada nesta premissa, pediria à Sua Santidade que explicasse a seguinte afirmação do Buda: "Há o que não nasceu, não se transformou, não se fez, não se condicionou. Caso não houvesse o que nasceu, se transformou, se fez ou se condicionou, não haveria uma maneira conhecida de escapar do que aqui nasceu, se transformou, se fez ou se condicionou. Mas, visto que há o que não nasceu, não se transformou, não se fez, não se condicionou, há então uma maneira conhecida de escapar do que nasceu, se transformou, se fez e se condicionou ".
- SSDL: É exatamente o que foi dito anteriormente. Se houvesse existência inerente e causalidade inerente, não haveria como escapar ao samsara (existência cíclica). Portanto, é válido afirmar que em nível convencional há um caminho, há causalidade e assim por diante. Mas, pelo fato da causalidade não ter existência inerente, a percepção de que a causalidade tem existência inerente é considerado ignorância, enquanto que ter a capacidade de perceber essa falta de causalidade na natureza da existência inerente é considerado sabedoria. Se houvesse existência independente, a percepção desta existência seria válida. Se houvesse existência independente, ao investigarmos se o objeto existe independentemente, seríamos capazes de encontrá-lo. Contudo, ao analisarmos esta questão em profundidade, não há como esses objetos existirem independentemente e, neste caso, vemos que a percepção da existência independente é errônea, é ignorância e que a percepção da existência não-independente é válida, é sabedoria. As duas possibilidades são antagônicas e quando existem duas coisas tão diametralmente opostas, não há como uni-las. Somente uma pode ter um fundamento válido.
ALÉM DO BEM E DO MAL
- WIE: Algumas pessoas afirmam que os atos e palavras de um iluminado devem refletir necessariamente bondade. Há, porém, outros pontos de vista e até mesmo escolas de pensamento que mantêm que a pessoa iluminada está além do bem e do mal, e as ações desse indivíduo não podem ser julgadas. Qual a sua opinião a respeito?
- SSDL: Na natureza do vazio, na natureza da ausência de existência independente, segundo essa natureza, o bem e o mal são iguais. Ao ponderarmos sobre a realidade absoluta, não há diferença entre o bem e o mal nessa realidade específica. Sob a perspectiva do Buda, que se encontra permanentemente num estado de absorção total, não há diferença entre o bem e o mal. Mesmo em outros estágios da prática, quando se vivencia o shunya (da realidade absoluta), mesmo no momento quando a mente está totalmente absorvida por essa realidade, não há sensação de bem e mal e tudo se iguala. Quando se vivencia profundamente a realidade absoluta, é algo tão intenso que a percepção da realidade convencional e objetiva será bastante diferente. Por exemplo, se a absorção da mente no vazio for uma experiência realmente intensa, isto é, totalmente absorvida por um estado de realidade absoluta ou vazio, a influência e forma da realidade convencional serão insignificantes. Isto não significa que em nível convencional não haja diferenças entre o bem e o mal. Há o bem e há o mal. É por esta razão que Buda desenvolveu a auto-disciplina. Se não houvesse o bem e o mal, Buda teria levado uma vida negligente. Portanto, para exercermos a sabedoria, é necessário antes exercitarmos a concentração e estabilidade meditativa e, para tal, necessitamos de uma base sólida no exercício da moralidade e disciplina ética.
A TRÊS JÓIAS
- WIE: Na condição de budista, Sua Santidade busca refúgio no Buda, dharma e sangha, conhecidos como a 'Jóia Tríplice" ou as "Três Jóias". Hoje, no Ocidente, há inúmeras intetpretações para cada elemento da Jóia Tríplice, o que significa buscar refúgio em cada um desses elementos e se é realmente necessário recorrer aos três. Sua Santidade acredita que esses três elementos combinados sejam mesmo essenciais? Poderia explicar o significado de cada um?
- SSDL: Dos três, o elemento mais importante de refúgio é o dharma. A pessoa, ou a origem do dharma, se torna o refúgio. Portanto, todos os que seguem e praticam o dharma são merecedores de respeito. Essas três jóias complementam-se, mas em geral Buda vem em primeiro lugar. Por que? Ao buscarmos refúgio, recorremos primeiro ao Buda porque o dharma foi originalmente ensinado por mestres, por Budas especiais.
- WIE: É interessante sua afirmação que devemos buscar refúgio no Buda em primeiro lugar; pois ter um Buda ou um mestre perfeito para nos mostrar o caminho parece ser essencial à jornada. Sua Santidade menciona com frequência a profunda veneração e respeito que sente por seus mestres. Poderia nos fornecer maiores detalhes sobre o valor ou a necessidade de ser ter um guia espiritual?
- SSDL: Sem Buda, seria muito difícil para um praticante budista compreender a realidade absoluta. Quando Buda abre nossos olhos para a complexidade das coisas, é óbvio que devemos nos esforçar e buscar. Contudo, deve haver uma pessoa que abra nossa cabeça e nos indique o caminho. Buda é extremamente importante e é difícil entender o que é Buda sem conhecer o dharma. Quando nossa fé é verdadeira e resulta da busca do dharma, um sentimento de grande proximidade e respeito por Buda irá surgir naturalmente. O mesmo acontece com a sangha, porque a sangha inclui todos os grandes mestres e praticantes, como Nagarjuna (respeitado filósofo budista do século II), todos eles seres humanos extraordinários. Obviamente, esses seres não foram extraordinários desde o princípio. Eram seres humanos comuns, que através da prática do Buda-Dharma tornaram- se extraordinários. Quanto à real necessidade de se ter ou não um mestre, os livros podem desempenhar esse papel. Um lama tibetano, ao morrer, disse ao discípulo: "Agora você não deve mais depender de um mestre. Busque apoio nos livros e faça-os seu mestre". Esta afirmação é muito sábia. Sem investigação e sem conhecer bem a pessoa, pode ser precipitado elegê-la seu guru ou mestre. A devoção ao guru ou guru-yoga envolve muita responsabilidade. É muito importante investigar profundamente antes de escolher o mestre.
- WIE: Sua Santidade mencionou sua prática espiritual e seu desejo de dedicar mais tempo à ela. Muitos de nossos leitores devem se perguntar como consegue encontrar tempo para suas práticas espirituais, emfunção de suas responsabilidades e intensa agenda de viagens.
- SSDL: Geralmente, inicio minhas atividades de trabalho às 7 ou 8 horas da manhã. Levanto-me sempre às 4 horas, para que eu possa me dedicar à meditação, recitação ou orações. Sempre quando tenho algum tempo livre, em viagens longas de trem ou de carro, por exemplo, procuro fazer minhas orações.
Entrevista com Sua Santidade o Dalai Lama concedida a jornalista Amy Edelstein, da revista norte-americana WIE ("What is Enlightnement?" "O que é a Iluminação?"), edição de outubro/dezembro 1998.
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