| Entrevista com Lia Diskin |
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Pergunta: Professora Lia, por que é necessário, hoje, pensar no Tibet?
Lia Diskin: Acredito que existem três razões. A primeira delas é que no Tibet há uma situação sociopolítica, cultural e humana absolutamente ameaçada em sua sobrevivência. É uma razão fundamental: irmanarmo-nos num sentimento de solidariedade entre povos ao ver a perda de uma tradição. A segunda: neste momento de globalização, o desaparecimento de tradições e regionalismos é, infelizmente, muito freqüente, e sabemos a perda que a humanidade tem com isso. O grande trunfo da vida é a diversidade;é nela que a vida se perpetua. Quando não existe diversidade, a vida se empobrece. Acredito que a humanidade se torna mais pobre com a perda de uma cultura. E terceira grande razão: gostemos ou não, para o ocidente o Tibet sempre representou aquela expressão da espiritualidade plena, de realização máxima, de paz, de serenidade, de equilíbrio, de conquista interior, de nirvana, de satori, como queira chamar... Neste momento em que estamos dominados por uma tecnociência, por uma tecnologia científica, tudo está quantificado, de alguma maneira medido e pesado. O encantamento do mundo se esvai, a poesia desaparece. A preservação do Tibet como símbolo, emblema, baluarte em nosso imaginário, é extremamente importante. Perdemos o contrapeso, neste momento; e o contrapeso é um Tibet de busca de realização interior, de auto-expressão. É um resgate da poesia interior. Se perdermos esse contrapeso, o ocidente como um todo estará sofrendo uma grande perda, de uma referência importantíssima. São essas as três razões que vejo.
Pergunta: Você quer fazer algum comentário especial sobre a situação do Tibet, como acontece hoje?
Lia Diskin: Gostaria apenas de ressaltar, de maneira muito evidente, o decreto, por parte das autoridades da República Popular da China, que introduz a língua chinesa nas escolas primárias tibetanas. A linguagem é a maneira de estabelecer sua rede de comunicação, o instrumento pelo qual ocorre a entrada e saída da vida, análogo aos poros da pele, que possibilitam a alimentação e a retroalimentação a linguagem é, para as culturas, a epiderme. Quando uma cultura é atacada em sua linguagem, simplesmente fecha-se essa epiderme, fecham-se os seus poros e elimina-se qualquer possibilidade de manter aberturas de troca, para dentro e para fora. Não resta mais a essa cultura, então, nenhuma possibilidade de sobrevivência. A sua expressão se asfixia. Acredito que esse é um sinal muito perverso, muito carregado de sentimento hostil para com o povo e a cultura tibetana. O fato de existirem onze universidades no Tibet, e que em apenas uma delas se fale o tibetano, e que os exames de admissão sejam em língua chinesa, por si só já discrimina de modo absoluto o povo tibetano; torna-o, como se costuma dizer, um cidadão de segunda classe em seu próprio território. Aqui, na América Latina, temos uma experiência poderosíssima a esse respeito: carregamos um enorme sentimento de culpa pelo que temos feito com as nossas populações indígenas. O colonizador das terras já sabe o que é isso: a extinção dessa riqueza maravilhosa do continente latinoamericano, das culturas extraordinárias que se deram neste continente e que hoje tentamos resgatar, de modo quase desesperado. A língua tupi-guarani, a língua ianomâmi, resgatar algo que hoje sabemos que é extremamente valioso. Repetir essa atitude com um povo nos dias de hoje, com o desenvolvimento da consciência que o mundo já obteve, é não estar à altura dos tempos.
Pergunta: Anteriormente você falou sobre a globalização, e agora menciona os problemas da colonização. Como você vê o futuro de tantas culturas ditas minoritárias, e mais especificamente da cultura tibetana, no nosso mundo dito globalizado?
Lia Diskin: Não me lembro quem tem dito, recentemente, que globalização e colonização praticamente significam a mesma coisa. São sinônimos. Quando você quer impor, de maneira declarada ou sub-reptícia, um repertório de valores que são particulares como se fossem universais, está colonizando. Quanto toma um repertório de verdades que são válidas para um determinado grupo ou expressão humana e quer universalizar essas verdades, validá-las para outros grupos, está colonizando. Está, de algum modo, doutrinando. Se a globalização, em uma de suas faces, está querendo fazer isso, trará momentos dramáticos para toda a humanidade. Essa diversidade da qual falamos simplesmente se perderá. Mas há e é muito bonito perceber isso um núcleo vital de resistência. Um exemplo: toda essa questão que aconteceu no Mercado Comum Europeu no que diz respeito aos queijos da França. Há um núcleo de resistência que quer aquilo que tem valor para a região, para a tradição ou o grupo humano específico. Lutar pela reivindicação dos direitos de expressão da vida e da cultura de um povo como é o caso do tibetano, é estar à altura da vitalidade da resistência resistência pró-vida. Não eliminar aquilo que vai ser imprescindível para a preservação da própria vida lá na frente, no futuro, que é justamente a biodiversidade! O Tibet mostra ao mundo uma resistência dramática, de quarenta e poucos anos, desde a invasão que forçou o Dalai Lama e outros cem mil tibetanos a saírem de seu país. Ameaçados de extermínio, foram para a Índia e formaram sua comunidade no exílio. Êsse núcleo de resistência sem violência é um grande gesto, exemplo do que a condição humana pode desenvolver como um todo. Um gesto de Gandhi. A presença desse homem foi absolutamente inusitada; poderíamos dizer que não era um homem de grandes talentos pessoais, não era um homem de dinheiro, de grandes estudos ou condecorações acadêmicas, enfim, era, como disseram alguns, um faquir cabeça-dura... um homem muito teimoso! Mas qual foi a sua grandeza? A capacidade de articular, num momento político extremamente difícil, meios ou mecanismos políticos inusitados justamente a não-violência.
Neste momento o Tibet se defronta, sem dúvida, com uma grande potência mundial de maneira não-violenta. É um método políticamente inusitado.
Pergunta: Como surgiu a idéia de formar um Comitê de Apoio ao Tibet? Qual a história do comitê?
Lia Diskin: O Comitê existia informalmente, atrevo-me a dizer, desde o ano de 1987, quando voltei de Dharamsala e começaram a ser convidados diferentes lamas para visitar São Paulo. Houve uma sucessão de Rinpoches convidados, cuja relação completa não me lembro, que culminou com a programação da visita de S. S. o Dalai Lama em 1982, em que vários amigos e simpatizantes da causa tibetana se reuniram para levar a cabo esse evento tão importante. Assim, o comitê existe desde aquele ano de 1987, com grande parte dos integrantes daquela época. Organizou-se formalmente a pedido de Tashi Wan, Ministro das Relações Exteriores do Governo Tibetano no Exílio, e Rinchen Darlo, Representante do Dalai Lama para as Américas e diretor do Tibet Office de Nova Iorque, quando estiveram no Brasil, em 1996. Nessa ocasião, disseram da alegria, do prazer, do conforto que teriam os tibetanos no exílio ao saber da existência de um grupo oficialmente organizado e legalmente constituído. Foi por essa recomendação que o grupo se formalizou.
Pergunta: Quais são as linhas de trabalho do grupo a curto, médio e longo prazo?
Lia Diskin: Agora, fundamentalmente, a linha de trabalho é informar sobre a situação do Tibet. O fato de geograficamente estarmos muito distantes, de estarmos em um continente que tem seus próprios problemas e não são poucos de alguma maneira diminui o interesse na informação. A mídia, nesse aspecto, é extremamente omissa; não temos quase nenhuma notícia sobre a situação presente do Tibet via veículos de comunicação. A Ásia está em outro planeta; a gente não sente que as coisas que acontecem lá acontecem aqui a não ser quando fala-se sobre a bolsa de valores! Nesse caso, estamos up-to-date; aí a questão nos interessa. Mas há coisas muitíssimo mais importantes do que a bolsa de valores. São culturas que estão em jogo. Realmente. Nesse aspecto, o primeiro passo que estamo dando, o projeto a curto prazo é informar e divulgar qual é a situação precisa do Tibet.
A médio prazo, gostaríamos de poder trazer também expressões culturais, como exposições da arte tibetana, que é de um refinamento, uma qualidade estética e uma expressividade muito particulares. A cultura tibetana aconteceu num espaço privilegiado, criando coisas que não ocorrem em nenhum outro canto do planeta. Por estarem no platô tibetano, à altitude de quatro mil metros de altura, com temperaturas extremamente baixas, solo muito rochoso, pedra convivendo com neve, e terem um leque de produtos alimentares restrito (frutos, cevada) cria uma condição muito particular para esse grupo humano, que venceu tanta hostilidade física. Essa fortaleza é muito significativa para o resto da humanidade. Ela é sábia; não há como defrontar-se violentamente com a natureza. Há que aproveitar as brechas que essa natureza deixa para poder conviver com ela e fazer dela um aliado, não um inimigo. Isso é extremamente importante para todos nós, sobretudo neste momento em que percebemos que o uso abusivo dos meios naturais, o ultraje, a rapina que temos feito no planeta nos alertam com sinais muito urgentes. Vamos ter que aprender a conviver harmoniosamente com essa natureza; aprender que o nosso espaço como espécie não pode excluir ou eliminar o espaço de outras espécies.
A longo prazo, esperamos poder participar na celebração de um Tibet independente, de um Tibet livre, de um Tibet que obviamente não será o do passado. Estamos em outro contexto histórico, em outra realidade; os próprios tibetanos cresceram imensamente, em seu contato com o ocidente e com outras culturas. Então não será aquela coisa isolada, aquela ilha de riqueza espiritual perdida. Terá outra dinâmica; uma dinâmica que permita a vida, permita trocas, entrada e saída com fecundação mútua. Que todos possamos ser fecundados e fecundar, como povos, culturas, indivíduos, de maneira desimpedida, livre e tranqüila.
Pergunta: Nesse cenário de exílio da cultura tibetana, nesse novo cenário da cultura tibetana espalhada pelo mundo e estabelecendo-se em novas bases, qual é, na sua opinião, o papel da América Latina e mais especificamente do Brasil?
Lia Diskin: A América Latina é uma experiência muito maravilhosa, muito particular. O Brasil é uma manifestação de experiências muito únicas. Aqui convivem raças, convivem etnias, convivem línguas, com uma facilidade e um trânsito extremamente dinâmico, extremamente vital. Há uma vitalidade na América Latina que não percebo, por exemplo, na Europa. Há uma vontade de crescer, de descobrir, de ganhar uma identidade que não vejo na Europa, nos Estados Unidos, no Canadá. A América Latina é um continente muito jovem e muito fértil. Muito rico. Eu pessoalmente acredito que uma tradição e uma experiência espiritual tão ancestrais quanto a tibetana podem ser de extrema utilidade; mas também acredito que a essa tradição e experiência a América Latina pode ser de extrema utilidade, em termos de permitir que a sabedoria, a semente-mãe se mantenha mas com uma dinâmica, uma jovialidade e uma renovação muito benéficas. Manter a capacidade de perpetuar a sabedoria com a renovação dos meios, dos veículos e dos instrumentos com que ela se expressa.
Pergunta: Já há planos para uma nova visita do Dalai Lama ao Brasil?
Lia Diskin: Temos já assinalada uma perspectiva assinalada em Dharamsala em termos do ano de 1999. Pensou-se inicialmente neste ano, mas a agenda de Sua Santidade está extremamente carregada e só seria possível em dezembro, mês não muito favorável para nós da América Latina outros países no nosso continente seriam incluídos na visita. Neste momento trabalhamos na agenda para 1999.
Pergunta: Há cada vez mais interesse na questão tibetana. Há muitos que querem participar e ajudar de alguma maneira. Quais são as maneiras pelas quais essas pessoas podem fazê-lo?
Lia Diskin: O trabalho que vem sendo feito pelos diferentes grupos de suporte ao Tibet são mais de mil, felizmente, espalhados pelo mundo todo e muito especialmente o impacto produzido por dois filmes, Seven Years in Tibet e Kundun, que esperamos cheguem muito em breve ao Brasil, de alguma maneira vão despertanto esse interesse as questões históricas e sócio-políticas do Tibet, o que é extremamente importante e significativo. O Brasil é muito receptivo e sensível às questões da cultura: há um interesse enorme pela arte, culinária, artesanato, tradição de cura que nasceram dentro da tradição tibetana. Há maneiras de ajudar. A mais direta é assinar o Tibet Livre, essa newsletter que traz notícias atualizadas do país e dos diferentes movimentos que vão surgindo no mundo todo para a conquista de um espaço cultural para o Tibet. É também muito importante auxiliar na divulgação. Há hoje muitos vídeos retratando a situação tibetana. Se você tem ou pode obter um desses vídeos, se tem conhecimento, reúna seus amigos em casa, fale nas salas de aula, fale nas fábricas, de alguma maneira participe ao outro qual é a situação dos nossos irmãos, afinal, irmãos que estão um pouco distantes geograficamente mas que fazem parte, como diria Edgard Morin, da nossa única pátria, que é o planeta. Somos todos compatriotas! Esse é, hoje, um modo muito importante de colaborar.
Há ainda outras maneiras: aproximar-se do Comitê, para fazer traduções e muitos outros trabalhos.
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