A PROPOSTA DO DALAI LAMA





Proponho que o Tibet, incluindo as províncias orientais do Kham e do Amdo, seja transformado numa zona Ahimsa, palavra hindi que significa uma região consagrada à paz e à não-violência. A instauração dessa zona de paz manteria o papel histórico do Tibet: nação budista, neutra e pacífica e estado-tampão entre as grandes potências da Ásia. Também se pode aceitar a proposta do Nepal e proclamá-lo zona de paz, mas para tal será necessário o apoio declarado da China. A zona de paz sugerida pelo Nepal teria um impacto maior se incluísse o Tibet e as zonas circundantes.

Para se instaurar uma zona de paz no Tibet, é preciso que as tropas chinesas se retirem e que as instalações militares sejam destruídas. A Índia podia então retirar as suas tropas e bases militares das regiões dos Himalaias. Um acordo internacional podia garantir a legítima exigência de segurança chinesa e permitir o restabelecimento da confiança por parte dos tibetanos, dos indianos, dos chineses e demais povos da região. Seria benéfico para todos os países, particularmente para a China e para a Índia, pois esta política aumentaria a segurança e libertaria estes países do fardo econômico de manter grandes concentrações militares junto das fronteiras litigiosas dos Himalaias. Historicamente, as relações entre a China e a Índia nunca foram muito tensas. Quando o exército chinês invadiu o Tibet, criou-se pela primeira vez uma grave tensão entre as duas potências. Desde a guerra de 1962, continuam a produzir-se inúmeros incidentes. O restabelecimento de boas relações entre os dois países mais povoados do mundo seria muito facilitado se estivesse separado por uma vasta região neutra, com intenções amistosas.

Para melhorar as relações entre tibetanos e chineses, a primeira condição é estabelecer uma relação de confiança. Depois do holocausto das últimas décadas, no qual mais de um milhão de tibetanos — ou seja, um sexto da população — perdeu a vida e pelo menos outro tanto passou pelos campos de prisioneiros em virtude das suas convicções religiosas e do seu amor pela liberdade, apenas a retirada das tropas chinesas poderia lançar um autêntico processo de reconciliação. A presença de uma força de ocupação lembra aos tibetanos, dia após dia, a opressão e o sofrimento de que são vítimas. A retirada das tropas seria o sinal concreto das relações que poderiam vir a ser travadas posteriormente, com base na amizade e na confiança.
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Não poderemos ter êxito em nossas negociações
para salvar a cultura tibetana sem o apoio de vocês.

S.S. o Dalai Lama