Dois países, um sistema – o mito da autonomia tibetana
do The Economist – 19 de março de 2008
As horríveis cenas de violência que ultimamente amedrontaram Lhasa e outras partes do Tibete são apenas o episódio mais recente em mais de meio século de resistência esporádica à dominação chinesa.
Os comunistas chineses invadiram (ou, como eles diriam, “liberaram”) o Tibete em 1950. No ano seguinte, persuadiram — coagiram, diriam seus apoiadores — o jovem Dalai Lama, o líder espiritual do Tibete, a assinar um “Acordo de 17 pontos”, o reconhecimento da soberania chinesa em troca de um alto grau de autonomia.
A não-manutenção dessa promessa de autonomia, por parte dos chineses, levou a um levante, em 1959. Foi esmagado. O Dalai Lama e cerca de cem mil dos seus seguidores exilaram-se na Índia, e a China encravou ainda mais as suas garras.
O Tibete, entretanto — ou melhor, uma parte da área vista por muitos tibetanos como a sua pátria histórica — permanece como uma “região autônoma” da China, como quatro outras áreas com grandes minorias étnicas (Guanxi, Mongólia Interior, Ningxia e Xinjiang).
Na prática, estas regiões não desfrutam de mais autonomia do que as províncias, apesar de alguns esforços mínimos do partido para a representação das minorias. O governo da Região Autônoma do Tibete (TAR), por exemplo, tem geralmente sido ocupado por alguém da etnia tibetana (o posto mais importante da secretaria regional do partido foi sempre de um chinês de etnia Han, inclusive, em certo momento, por Hu Jintao, o atual líder do partido).
Mas a China ofereceu significativa autonomia para duas importantes regiões — Taiwan e Hong Kong — em troca do reconhecimento da soberania chinesa.
No dia 1º. de outubro de 1981, Ye Jianying, então o dirigente do Congresso Nacional Popular, a legislatura oficial chinesa, fez uma “Proposta de Nove Pontos” para Taiwan (os líderes chineses têm qualquer coisa com números).
Ainda a base da política oficial, oferece a Taiwan, com efeito, auto-governo e a preservação de seu sistema político — e até mesmo de seu próprio exército — em retorno pelo aceite de uma posição como parte da China.
Três anos mais tarde, idéias com grande similaridade foram incorporadas à Declaração Conjunta Anglo-Chinesa sobre o futuro de Hong Kong depois de 1997. A oferta a Hong Kong, então colônia britânica, foi bem menos generosa (nunca lhe foi permitida a construção de seu próprio exército).
Na nervosa década de 90, antes da transferência de Hong Kong para a China, a chocante experiência da “autonomia” na China foi várias vezes utilizada como advertência.
Mas, na verdade, a China, de diversas maneiras, respeitou a autonomia de Hong Kong como uma “região administrativa especial” da China. Entretanto, não permitiu que o território elegesse diretamente seus próprios líderes, nem mais do que apenas parte de seus legisladores.
Por esta razão, na visão de Taiwan, onde uma forte tradição democrática enraizou-se firmemente nas últimas duas décadas, Hong Kong não é uma boa propaganda para a vida sob a soberania chinesa.
E não é, também, para muitos tibetanos, que, diferentemente de Hong Kong, são étnica e linguisticamente diferentes dos chineses Han, e reivindicam ser histórica, cultural e legalmente separados da China.
O Dalai Lama, no entanto, permanece como um apoiador da autonomia tibetana sob a China. Tem dito, recentemente, muitas vezes, que a independência completa está “fora de questão”. Ele ameaçou, também, renunciar à sua função de mais importante defensor do Tibete caso a violência se propague.
Ele tem 72 anos. Apesar de gozar de boa saúde, os tibetanos preocupam-se com o seu passamento. Haverá um vácuo, antes do desenvolvimento da sua próxima reencarnação. Pode muito bem surgir uma disputa quanto à identidade dessa reencarnação. Ou pode ser que não haja nenhuma: o Dalai Lama sugeriu a realização de um refere