19 Abril, 2008

O Realismo do Dalai Lama

14 de abril de 2008

Por PICO IVER, em The New York Times

A situação no Tibete não poderá se resolver até que e a não ser que o futuro dos indivíduos chineses também seja resolvida; a maioria dos cidadãos de Lhasa, afinal, já é de chineses da etnia Han. E um dos tibetanos no exílio que conhece a China mais intimamente, e por mais de meio século, é o Dalai Lama, que tem trabalhado com a liderança de Beijing desde os primeiros dias do governo comunista, há 58 anos atrás, e que viajou por um ano pela China, contra a vontade de seu povo, em 1954, encontrando-se com Mao Tsé-Tung, Chu En-Lai e Deng XiaoPing.

O fato de que tantos no mundo se levantam para apoiar os tibetanos, e a justa necessidade que têm de liberdade, é claramente maravilhoso, e este é possivelmente um momento em que a China precisa da aprovação do mundo, e portanto pode ser pressionada para ser mais flexível. Mas permanece o fato de que o Império do Centro, com sua grande tradição de orgulho e de não aceitar conselhos de estrangeiros, só responderá com mais violência se confrontado de maneira violenta demais, e é preciso uma sensibilidade muito fina para evitar que mais sofrimentos se abatam sobre os cidadãos chineses e tibetanos que já sofrem tanto. Como o Dalai Lama vem dizendo há muito tempo, o mais importante agora é não pensar somente no agora, mas também no que acontecerá depois que os Jogos se acabarem, o mundo mudar de foco (para o Iraque, para a eleição presidencial americana, para os nossos muitos outros problemas), e a China estiver livre para executar suas políticas por baixo do pano e com a máxima brutalidade.

Isto é parte do que o move a conclamar o mundo para falar pelo bem do Tibete, mas não criticar demais a China. A falar apaixonadamente pela restauração dos direitos básicos de livre expressão e pensamento no Tibete, mas não denegrir os chineses no processo (em parte porque tantos outros chineses vivem e sofrem sob restrições similares). O mundo inteiro sente, agudamente, as frustrações humanas e o sofrimento totalmente compreensíveis do povo tibetano, após mais de cinco décadas de opressão; mas a impaciência sempre é contraproducente, e jogar uma pedra na janela de vidro do vizinho só levará a mais má-vontade e, possivelmente, décadas de consequências indesejadas e imprevistas — especialmente se, no caso da China e do Tibete, é provável que continuem vivendo perto um do outro por muitos anos ainda.

É ingênuo, para a liderança chinesa, dizer que as Olimpíadas são apenas um evento esportivo (eu sei bem disso, tendo coberto cinco olimpíadas para a Time Magazine); são uma oportunidade para a China mostrar ao mundo suas realizações recentes, que são espantosas, como fizeram o Japão em 1964 e a Coréia do Sul em 1988. Mas se abrem as portas verdadeiramente para o mundo, não podem esperar que ele deixe passar coisas que são tão flagrantes e indesculpáveis quanto a negação, pelo governo chinês, dos direitos básicos de seu povo. O mundo precisa da China, e a China precisa do mundo, como disse o Dalai Lama quando viajei com ele pelo Japão, cinco meses atrás. Mas dar uma gelada na China só fará com que ela crie demônios em sua cabeça, em vez dar espaço aos humanos que esperam a chance de falar com ela.

Mas tolerância não significa aceitar aquilo que está claramente errado, como ele sempre enfatiza, e se a China realmente busca a amizade com o resto do mundo, isso significa legitimar e confiar tanto na sua aprovação quanto nas suas críticas e sugestões. Pode esperar que o mundo a ouça, mas não que se ajoelhe frente a uma China que não se mostrou, até agora, muito disposta a ouvir o mundo.

Ao mesmo tempo, porém, é tolice para os tibetanos colocar suas esperanças somente em gestos e protestos, sendo que são superados em número na razão de 200 por 1, e enfrentam um vizinho que se ofende tão facilmente. O maior patrimônio que o Tibete tem é um líder que sempre busca o diálogo e a amizade, e que também é o mais antigo líder do planeta (é chefe do seu povo há mais de 67 anos), bam como o líder mais realista e pragmático que já encontrei em meus 26 anos de jornalismo pelo mundo. A difícil vida que o Dalai Lama tem nunca permitiu que ele se distraísse com desejos ou abstrações; ele é um empirista, que trabalha nas e com as circunstâncias do momento. A China precisa ser lembrada das suas responsabilidades maiores, mas sem força excessiva; e os que entram em desespero podem pensar em Vaclav Havel, amigo e defensor do Dalai Lama, que foi preso e oito semanas depois unanimemente escolhido como presidente da Checoslováquia, ou em seu amigo e colega Desmond Tutu, que viveu 62 anos na terra do apartheid sem poder votar, e no dia seguinte acordou em uma África do Sul livre (mas ainda problemática). “Até o último momento”, como diz sempre o líder tibetano, “tudo é possível.”

Pico Lyer escreveu, recentemente, “The Open Road”, um relato de 33 anos de conversas com o Dalai Lama, e mais de 20 anos de viagens pela China e pelo Tibete.

http://topics.blogs.nytimes.com/2008/04/14/the-dalai-lamas-realism/