01 Junho, 2002

RESTRIÇÃO RELIGIOSA – DIFICULDADE ATÉ PARA IR A LHASA VOLTA


Um informante que deseja permanecer anônimo relatou:

"Sou originário do Condado de Tsekhog, "PAT" de Malho. Há cerca de oito membros na minha família e todos são nômades. O Condado de Tsekhog consiste em dez vilarejos e dez mosteiros. O Mosteiro de Zhzbar é o mais restrito mosteiro do condado. Os oficiais chineses sempre conduzem a campanha de ‘reeducação’ no mosteiro de Zhabar.

Eu fui um monge no Mosteiro de Jadar que originalmente se chamava Ganden Tashi Choeling. Na época de minha entrada, haviam apenas quarenta monges. Hoje há cerca de 120 monges no mosteiro. Em 2001, as autoridades chinesas estabeleceram um limite de 80 monges e o resto recebeu ordens de ir para outros mosteiros. Os monges com menos de 18 anos de idade não foram autorizados a ficar no mosteiro.

Em 1999, as autoridades chinesas deram início à campanha de ‘educação patriótica’ no mosteiro de Jadar. Elas distribuíram documentos para todos os monges, que diziam que existe uma pátria. Haviam 15 capítulos no documento. Ele também mencionava o patriotismo e denúncia do ‘separatista’.

De julho de 2000 a fevereiro de 2001, os chineses proibiram fotos do Dalai Lama. Expulsão era a punição para a desobediência. Se mantivéssemos a foto proibida, seria considerado quebra da Lei Chinesa.

Em julho de 2001, um total de 30 oficiais vieram para o mosteiro incluindo sete oficiais da "equipe de trabalho" e outros de nível local e do condado. Como o mosteiro está localizado perto do escritório do condado, os oficiais não pernoitariam no mosteiro. Eles apenas vinham duas ou três vezes ao mosteiro. Os principais assuntos ensinados eram patriotismo à nação e liberdade de religião. Na realidade, nós não tínhamos liberdade de religião.

Desde 1988, o Mosteiro de Jadar tem um Comitê de Administração Democrática (CAD). Atualmente cinco monges administram o CAD e esses monges são eleitos por um período de cinco anos. O presidente do CAD é Gedun Gyatso e o vice-presidente é Choeyang Gyatso. Os outros são Kunga, Zoepa e Lobsang que são seus subordinados.

As autoridades chinesas sempre proíbem o CAD de aumentar o número de monges no mosteiro. A responsabilidade do CAD é interceptar cartazes de liberdade, frases pró-independência no mosteiro, e encontrar queles que têm conexão com o governo tibetano em exílio, e eliminar todos os ‘separatistas’ no mosteiro. Se algo disso acontece, o presidente do CAD é considerado responsável.

Como as autoridades chinesas proibiram monges de menos de 18 anos de idade de estudarem no mosteiro, tentamos fundar uma escola para esses monges menores. O governo rejeitou a idéia. Mandamos uma carta ao escritório do Condado e escritório do município sobre o assunto mas não deu certo.

Muitos monges gostariam de ir para a Índia mas os que retornaram dizem que na Índia faz muito calor. Por outro lado, o Governo Chinês não deu o ‘shan fein zhang’ (carteira de cidadania chinesa) para os monges. Por causa disso, os monges nunca podem deixar o mosteiro. Em fevereiro de 2001, tentei conseguir ‘shang fein zhang’ do escritório do condado mas não consegui porque sou um monge.

Quando os monges precisam ir para a China ou Lhasa, eles têm que obter ‘Tong xin zhang’ (permissão de viagem) de um Departamento Religioso e também é preciso retornar no prazo. Se alguém não retorna no tempo estabelecido, não tem mais permissão de ficar no mosteiro. Particularmente no caso de um lama, ele precisa ter um oficial que possa garantir para obter o ‘Tong xin Zhang’. Se o lama não retornar a tempo, a pessoa que garantiu terá problemas. Isso significa que há muitas restrições até para ir a Lhasa.

O informante também falou sobre condições na área local. Ele disse, "Já que a divisão de pastagens entre as famílias foi introduzida nos anos 80, muitas disputas ocorreram entre as pessoas. A água não flui para as terras férteis, mas onde a água flui, não cresce grama. Essa é a principal causa dos maiores problemas. Os chineses dizem que tudo pertence à nação.
Quando eu estava vindo para a Índia, os chineses anunciaram o Projeto de Desenvolvimento do Oeste e estavam construindo estradas na área dos nômades. A construção de estradas está muito próxima da minha cidade- o Condado de Tsekhog. Muitas famílias são muito pobres no condado, mas o governo nunca gasta dinheiro com as famílias pobres. Ele está investindo pesadamente na construção de estradas de Tongren-Tsekhog-Henan-Luchu-Machu-Golog-Sichuan. Agora eles construíram até para o Condado de Tsekhog. Todos os trabalhadores são chineses. Embora alguns tibetanos gostariam de trabalhar, o Governo Chinês os proíbe."

O informante também compartilhou informações sobre o assassinato de um monge, "Quando estava em Lhasa, eu fiquei sabendo que um monge de Sichuan foi morto no Yak Hotel. O monge estava tentando fugir do Tibet para a Índia. Disseram que ele tinha 80.000 yuan, e o guia o matou e tomou todo o dinheiro. Quando a polícia prendeu o guia, confiscou o dinheiro que continua nas mãos da polícia.

Algumas pessoas fingem ser guias e entregam fugitivos à polícia. Os guias trapacearam muitas pessoas, por isso é realmente difícil confiar nos guias. Há mais pessoas que foram enganadas do que pessoas que conseguem escapar para a Índia.

Eu também ouvi dizer que alguns homens de negócios de Amdo foram detidos cruzando a fronteira. Quando eles estavam fazendo piquenique na fronteira Dram-Nepal, eles queimaram incenso e gritaram "Longa Vida ao Dalai Lama!" Por causa disso eles foram presos após o piquenique. Eu não sei o que aconteceu com eles depois disso".



fonte: Jornal Human Rights – Junho 2002.