SORTE PELA QUARTA VEZ PARA FUGITIVO
Tashi, 30 anos, nasceu no vilarejo de Rishoekha, condado de Tewo, Kenlho "TAP", província de Gansu. Aos 23 anos tornou-se monge e serviu ao Lama Hortso por sete anos como assistente pessoal. No meio de 1995, Tashi foi para lhasa em peregrinação.
Tashi relatou ao Centro Tibetano de Direitos Humanos e Democracia (TCHRD): "Ao final da viagem, tentei cruzar a fronteira três vezes mas fui pego em todas as tentativas. Éramos cerca de 30 pessoas que não se conheciam, mas todas tendo um objetivo comum: escapar para a terra da liberdade. Infelizmente fomos pegos em Shigatse e detidos por um dia lá. Fomos instruídos a voltar para nossas terras natais assim que fôssemos soltos."
Pela Segunda vez Tashi fez um acordo com um guia em Lhasa para levá-lo para a índia. Ele disse : "Haviam cerca de quarenta pessoas. O guia nos levou num caminhão coberto com um plástico. Novamente não tivemos sorte. No posto de checagem fomos pegos por um grupo entre 30 e 40 policiais armados. Eles nos detiveram num porão por três dias." Tashi disse ao TCHRD: "Fomos todos levados a um centro de detenção onde ficamos detidos por 26 dias, durante os quais ficamos deitados num campo, que provavelmente era de futebol." Em todas essas tentativas ele teve roubados todos os seus pertences e o dinheiro que havia arranjado para sua fuga.
Tashi afirma : "No total me roubaram 50.000 yuan. A primeira coisa que um policial chinês fazia era revistar seu corpo e bagagem à procura de dinheiro ou objetos de valor. Eles sabem que os fugitivos vêm com dinheiro e o primeiro a achá-lo pode tomá-lo para si. Só em minha Quarta tentativa consegui chegar à Índia. Consegui ser admitido na Escola de Trânsito do Tibet, em Dharamsala. O ano era 1995. Durante os dois meses em que fiquei na escola eu adoecia com freqüência, pois não estou acostumado ao clima quente da Índia." Por volta de março de 1996, Tashi decidiu retornar ao Tibet.
"Em meu retorno ao Tibet, reuni 32 panfletos sobre temas políticos, cinco fitas de áudio contendo discursos do Dalai Lama e três fitas de vídeo com documentários sobre a invasão do Tibet que acredita-se serem políticos. Na fronteira do Tibet com o Nepal, um amigo me avisou que eu poderia ser preso por posse desses itens. Eu abordei um mercador Khampa (tibetano da província de Kham) e pedi a ele que carregasse os objetos. O mercador viajava regularmente pela fronteira e não seria checado.
Eu mantive um pequeno pacote de Mani Rilbu ( pílulas abençoadas pelo Dalai Lama), um pequeno retrato do Dalai Lama e um livreto contendo temas políticos. Durante a revista na fronteira, fui detido por possuir tais ítens. Fui imediatamente levado ao Centro de Detenção Nyari, Shigatse, "TAR". Os prisioneiros lá tinham de trabalhar duro.
Numa manhã, eu vi um oficial de prisão tibetana surrando severamente um monge nas dependências da prisão. Pedi ao policial para parar com tal ato não-religioso. Outros oficiais juntaram-se à comoção e me surraram também. Os oficiais da prisão eram particularmente muito severos e rudes com os prisioneiros monges e freiras porque eles eram mais ativos na luta pela liberdade do Tibet.
Oficiais da prisão guardam rancor contra eles e eram separados de outros prisioneiros. Ao serem presos, os oficiais da prisão penteavam os cabelos de um prisioneiro com as mãos para checar o comprimento do cabelo e, de acordo com tal, decidir se o preso vem de uma comunidade monástica ou não.
Os monges são obrigados a limpar banheiros, o que é um total descaso com os monges budistas , porque eles são tidos na mais alta estima na tradição tibetana. Para fugir de espancamentos adicionais os colegas de prisão do monge recorrem a uma vida de leigos. Comecei a fumar e deixei o cabelo crescer para evitar suspeitas sobre minha identidade.
Fui detido por um total de seis meses na prisão. Após minha libertação, comecei a levar vida de leigo, porque não consegui manter meus votos de monge na prisão. Em Lhasa, durante uma perambulação casual pelo mercado, um jovem policial me levou a um canto e começou a me bater. Fiquei confuso por todo o acontecimento e questionei o policial. A polícia apreendeu o distintivo bordado em meu suéter e me perguntou por que eu o estava usando. Eu, desavisadamente, havia posto o uniforme que levava o nome da minha antiga escola na Índia. Após um repetido apelo de inocência, o policial me deixou ir embora, mas com o distintivo cortado de meu suéter.
De Lhasa, fui direto à minha terra natal em Amdo. Comecei a distribuir os panfletos e os materiais que tinha trazido da Índia.
Uma vez, fui à casa de um rico mercador e dei a ele alguns panfletos e um pequeno pacote de Mani Ribu. O mercador recusou o presente e me pediu para não ir à casa dele pois isso o colocaria em encrencas.
Na noite do 28º dia do 7º mês (calendário tibetano) de 1997, estava andando quando dois ou três homens mascarados vieram em dois carros e pararam bem à minha frente. Sem dizer uma palavra, eles começaram a me bater. Fui vendado e levado a uma sala escura, onde as surras continuaram. Os homens mascarados me interrogaram sobre o paradeiro do resto do material e a pessoa que o tinha dado para mim. Respondi que comprei as fitas num mercado na cidade de Xini8ng e o resto estava escondido num campo ali perto. Como por ordem deles, mostrei a eles o lugar onde escondera uma bandeira nacional do Tibet e menti que havia perdido o resto.
Logo em seguida, fui levado de volta ao local de minha detenção e confinado a uma solitária escura. Fui severamente torturado lá. Minhas mãos foram amarradas a uma corda no chão, e a sala era escura como piche, então não pude ver nem o meu corpo. Eles me bateram por todo o corpo com um rifle e fiquei inconsciente. Perdi totalmente a noção de tempo. Entretanto, as surras continuaram por meses, até um dia em que me vendaram de novo e me levaram em um carro. Após horas de direção, saí do carro e eles tiraram a venda dos meus olhos. Me deram um papel com textos em chinês e me ordenaram que eu voltasse para casa. Quando alcancei os arredores de um vilarejo, descobri que estava logo depois de 1998, ano novo tibetano.
Voltei a meu lar e fiquei no vilarejo tentando voltar a uma vida rotineira. Casei-me e tive um filho.
Em 1999, alguns policiais vieram a minha casa e me molestaram dizendo que eu deveria pleitear culpa por haver me envolvido em atividades políticas. Eles também disseram que, se eu falhasse em pleitear culpa, eu receberia três anos de reeducação e enfrentaria outras surras. Eles me deixaram com este aviso.
Eu imediatamente tomei emprestados 28 mil yuan de um parente e fui com minha esposa e o bebê para a Índia.
No posto de checagem do Nepal, alguns ladrões roubaram todos os meus pertences e as jóias da minha esposa. Eles também roubaram meu casaco de couro e minhas mantas.
Após muita luta, em 3 de janeiro de 2000, alcançamos o Centro de Recepção Tibetana, em Dharamsala.
Tashi, 30 anos, nasceu no vilarejo de Rishoekha, condado de Tewo, Kenlho "TAP", província de Gansu. Aos 23 anos tornou-se monge e serviu ao Lama Hortso por sete anos como assistente pessoal. No meio de 1995, Tashi foi para lhasa em peregrinação.
Tashi relatou ao Centro Tibetano de Direitos Humanos e Democracia (TCHRD): "Ao final da viagem, tentei cruzar a fronteira três vezes mas fui pego em todas as tentativas. Éramos cerca de 30 pessoas que não se conheciam, mas todas tendo um objetivo comum: escapar para a terra da liberdade. Infelizmente fomos pegos em Shigatse e detidos por um dia lá. Fomos instruídos a voltar para nossas terras natais assim que fôssemos soltos."
Pela Segunda vez Tashi fez um acordo com um guia em Lhasa para levá-lo para a índia. Ele disse : "Haviam cerca de quarenta pessoas. O guia nos levou num caminhão coberto com um plástico. Novamente não tivemos sorte. No posto de checagem fomos pegos por um grupo entre 30 e 40 policiais armados. Eles nos detiveram num porão por três dias." Tashi disse ao TCHRD: "Fomos todos levados a um centro de detenção onde ficamos detidos por 26 dias, durante os quais ficamos deitados num campo, que provavelmente era de futebol." Em todas essas tentativas ele teve roubados todos os seus pertences e o dinheiro que havia arranjado para sua fuga.
Tashi afirma : "No total me roubaram 50.000 yuan. A primeira coisa que um policial chinês fazia era revistar seu corpo e bagagem à procura de dinheiro ou objetos de valor. Eles sabem que os fugitivos vêm com dinheiro e o primeiro a achá-lo pode tomá-lo para si. Só em minha Quarta tentativa consegui chegar à Índia. Consegui ser admitido na Escola de Trânsito do Tibet, em Dharamsala. O ano era 1995. Durante os dois meses em que fiquei na escola eu adoecia com freqüência, pois não estou acostumado ao clima quente da Índia." Por volta de março de 1996, Tashi decidiu retornar ao Tibet.
"Em meu retorno ao Tibet, reuni 32 panfletos sobre temas políticos, cinco fitas de áudio contendo discursos do Dalai Lama e três fitas de vídeo com documentários sobre a invasão do Tibet que acredita-se serem políticos. Na fronteira do Tibet com o Nepal, um amigo me avisou que eu poderia ser preso por posse desses itens. Eu abordei um mercador Khampa (tibetano da província de Kham) e pedi a ele que carregasse os objetos. O mercador viajava regularmente pela fronteira e não seria checado.
Eu mantive um pequeno pacote de Mani Rilbu ( pílulas abençoadas pelo Dalai Lama), um pequeno retrato do Dalai Lama e um livreto contendo temas políticos. Durante a revista na fronteira, fui detido por possuir tais ítens. Fui imediatamente levado ao Centro de Detenção Nyari, Shigatse, "TAR". Os prisioneiros lá tinham de trabalhar duro.
Numa manhã, eu vi um oficial de prisão tibetana surrando severamente um monge nas dependências da prisão. Pedi ao policial para parar com tal ato não-religioso. Outros oficiais juntaram-se à comoção e me surraram também. Os oficiais da prisão eram particularmente muito severos e rudes com os prisioneiros monges e freiras porque eles eram mais ativos na luta pela liberdade do Tibet.
Oficiais da prisão guardam rancor contra eles e eram separados de outros prisioneiros. Ao serem presos, os oficiais da prisão penteavam os cabelos de um prisioneiro com as mãos para checar o comprimento do cabelo e, de acordo com tal, decidir se o preso vem de uma comunidade monástica ou não.
Os monges são obrigados a limpar banheiros, o que é um total descaso com os monges budistas , porque eles são tidos na mais alta estima na tradição tibetana. Para fugir de espancamentos adicionais os colegas de prisão do monge recorrem a uma vida de leigos. Comecei a fumar e deixei o cabelo crescer para evitar suspeitas sobre minha identidade.
Fui detido por um total de seis meses na prisão. Após minha libertação, comecei a levar vida de leigo, porque não consegui manter meus votos de monge na prisão. Em Lhasa, durante uma perambulação casual pelo mercado, um jovem policial me levou a um canto e começou a me bater. Fiquei confuso por todo o acontecimento e questionei o policial. A polícia apreendeu o distintivo bordado em meu suéter e me perguntou por que eu o estava usando. Eu, desavisadamente, havia posto o uniforme que levava o nome da minha antiga escola na Índia. Após um repetido apelo de inocência, o policial me deixou ir embora, mas com o distintivo cortado de meu suéter.
De Lhasa, fui direto à minha terra natal em Amdo. Comecei a distribuir os panfletos e os materiais que tinha trazido da Índia.
Uma vez, fui à casa de um rico mercador e dei a ele alguns panfletos e um pequeno pacote de Mani Ribu. O mercador recusou o presente e me pediu para não ir à casa dele pois isso o colocaria em encrencas.
Na noite do 28º dia do 7º mês (calendário tibetano) de 1997, estava andando quando dois ou três homens mascarados vieram em dois carros e pararam bem à minha frente. Sem dizer uma palavra, eles começaram a me bater. Fui vendado e levado a uma sala escura, onde as surras continuaram. Os homens mascarados me interrogaram sobre o paradeiro do resto do material e a pessoa que o tinha dado para mim. Respondi que comprei as fitas num mercado na cidade de Xini8ng e o resto estava escondido num campo ali perto. Como por ordem deles, mostrei a eles o lugar onde escondera uma bandeira nacional do Tibet e menti que havia perdido o resto.
Logo em seguida, fui levado de volta ao local de minha detenção e confinado a uma solitária escura. Fui severamente torturado lá. Minhas mãos foram amarradas a uma corda no chão, e a sala era escura como piche, então não pude ver nem o meu corpo. Eles me bateram por todo o corpo com um rifle e fiquei inconsciente. Perdi totalmente a noção de tempo. Entretanto, as surras continuaram por meses, até um dia em que me vendaram de novo e me levaram em um carro. Após horas de direção, saí do carro e eles tiraram a venda dos meus olhos. Me deram um papel com textos em chinês e me ordenaram que eu voltasse para casa. Quando alcancei os arredores de um vilarejo, descobri que estava logo depois de 1998, ano novo tibetano.
Voltei a meu lar e fiquei no vilarejo tentando voltar a uma vida rotineira. Casei-me e tive um filho.
Em 1999, alguns policiais vieram a minha casa e me molestaram dizendo que eu deveria pleitear culpa por haver me envolvido em atividades políticas. Eles também disseram que, se eu falhasse em pleitear culpa, eu receberia três anos de reeducação e enfrentaria outras surras. Eles me deixaram com este aviso.
Eu imediatamente tomei emprestados 28 mil yuan de um parente e fui com minha esposa e o bebê para a Índia.
No posto de checagem do Nepal, alguns ladrões roubaram todos os meus pertences e as jóias da minha esposa. Eles também roubaram meu casaco de couro e minhas mantas.
Após muita luta, em 3 de janeiro de 2000, alcançamos o Centro de Recepção Tibetana, em Dharamsala.